terça-feira, 8 de março de 2011

Madrugada 2

Os dias começavam a ficar confusos, ele existia à noite e eu existia exausta de dia. Chegava em casa e o encontrava, se sentindo inútil. Eu cuidava de mim, da casa, de Ju e dele também. Qualquer dor de dente, dor de cabeça, lá ia Zahara correndo ao médico levar o amado. Como tentativa de mantê-lo ocupado, pedi que me ajudasse e que começasse a administrar as contas de casa - aluguel, escola, mercado, luz, Net, condomínio. Ele é muito organizado com os seus papéis. Tem tudo guardado em pastas numa pequena mala, ou melhor, tinha, até levar seus documentos pessoais para outro lugar, quase certeza que no trabalho. Claro que dinheiro ele não tinha, não estava interessada nisso, mas eu queria me livrar da responsabilidade de administrar isso. Agindo assim, talvez ele interagisse melhor, se envolvesse mais com a rotina de casa, se ocupasse. Minha intenção era mantê-lo ocupado. Mostrei a caixa de ferramentas que estava no armário do jardim e indiquei um montão de coisas que precisavam ser arrumadas. Pedi que me ajudasse na limpeza da piscina e em regar o jardim. Moro em uma cobertura, é pequena, mas é uma cobertura, hehe. Vim para o Guarujá há 2 anos para trabalhar. Pedi para me ajudar com o carro, que vivia imundo. De todas as tentativas, a que mais ou menos funcionou foi a limpeza do carro. Ele ia comigo ao trabalho, me esperava na rua e limpava meu carro com um paninho seco. Expliquei que pano seco arranha o carro, mas como é cabeça dura, abri mão. Quanto as contas, ele não se interessou quando comecei a explicar o quanto eu gastava, os valores, onde, silêncio absoluto. Imaginei que fosse por ele não poder ajudar financeiramente.
Lembro bem de uma noite que a torneira de casa quebrou. Pedi a ele que cuidasse disso no dia seguinte. Sai para trabalhar e na hora do almoço, quando eu voltava para casa, lá vinha ele, passeando pelo calçadão de bermuda, indo me encontrar. Não preciso dizer quem tomou a frente para consertar a torneira né?
Sim, acho que fui exigente, mas eu sempre dizia a ele que queria que ele me desafogasse nas pequenas coisas. Sempre fui independente, para mim é tudo ter um companheiro que divida as pequenas coisas. E sempre escutei dele que a manutenção de casa é assunto que ele resolvia fácil.
O Wasu não dirigia conforme os padrões ocidentais, Várias vezes tentou dirigir, mas sempre ia para a direita e chegou a quebrar o retrovisor de um carro. Era natural, pois lá eles dirigem sentados do lado direito e isso deve confundir qualquer um mesmo. Sentia que ele estava dependente demais de mim e talvez estivesse se sentindo mal com isso.
Como eu tinha certo controle na Obra, conversei com um encarregado da Mão de Obra, sobre contratar alguém para ajudar na limpeza da Obra. Quando ele respondeu que teria que buscar alguém de idade, pois os jovens não se submetem a esse tipo de trabalho, perguntei sobre o salário, R$ 700,00. Uau!! Olha o Wasu trabalhando comigo, sem registro como deveria ser. Tudo combinado, fui para casa sem saber como iria oferecer essa vaga a ele. Aceitou na hora. O grande lance era se ocupar, dar o start para as coisas acontecerem.
Essa noite, finalmente ele dormiu ao meu lado. Ele acordou as 4, rezou, fez seu café da manhã. Eu já não acordava mais. Meu fasting começava sem café, mas entre duas horas de sono a mais e comida, optei pelo sono.

6 comentários:

  1. Oi flor, muito interessante seu blog...Vc escreve muito bem e ja li todos os posts...

    Nossa, uma enorme pena mesmo que nao esteja funcionando..Mas vc ainda gosta dele? Sera q nao eh uma questao de tempo e de adaptacao?

    Olha, mas pelo que leio por ai, eu realmente morro de medo de levar meu marido pro Brasil...As vezes ele fala de ir, mas eu nao sei nao viu..ta td tao certinho por aqui q morro de medo de estragar tudo..Entao por enquanto, vamos permanecer por aqui e eu gosto do Pakistan :)

    Te coloquei no meu blogroll mesmo pq eu acho q todas q se envolvem nesse tipo de relacionamento e ficam completamente cegas, precisa conhecer os dois lados da moeda...

    No aguardo de seu proximo post e parabens pela coragem =)

    P`S: Nao lembro de vc na comunidade nao, vc usava esse msm nome? Qual seu nome real?


    Everyn Palhares

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  2. Olá Zahara, em primeiro lugar...meus parabéns pela coragem...
    Bom, eu não tenho blog nem faço parte das comunidades, mas já faz algum tempo que venho acompanhando assiduamente através dos blogs do gênero essa explosão de relações entre brasileiras e paquistaneses... obviamente que isso não é sem razão... existe um pak na minha vida também...por isso venho pesquisando o assunto. Só resolvi me pronunciar agora porque considerei o seu blog uma espécie de ápice digamos assim...do "outro lado aparecendo" infelizmente. Onde eu quero chegar é o seguinte: dentre todas as histórias que li...muitas felizes, algumas não tanto...o que fica mais evidente e que é ao mesmo tempo o ponto em comum de todas elas, querendo ou não, é a fragilidade dessas relações... a linha é muito tênue...e eu não digo isso só pelo eu vejo por aí, eu digo por experiência própria...todo dia eu penso que seria capaz de matar e morrer pelo meu Jan...mas e ele??? E não tenho tanta certeza... Esse é o dilema da minha vida. Até onde ir...? Será que todo esse sacrifício que somos capazes de fazer vale a pena?
    Eu não sei como exatamente classificar esse meu post..se como uma reclamação...abertura de coração...ou mesmo uma lamentação, só sei que finalmente aqui eu tive coragem. Desde já agradeço pelo espaço.
    Que Deus te proteja Zahara! Tudo de bom pra você.

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  3. E o homem ficou na sua aba? finaceiramente inclusive? Que vida boa a dele, isso sim!

    É péssimo o quanto perdemos e nos submetemos por estar carente! Porque é tão difícil encontar alguém decente?
    Eu estou muito carente e sei que preciso de um amor, amigo, companheiro... mas já sofri (e ainda..) tanto por um "amor" doentio..cego 100%.. agora tenho mais cuidado!
    Mas está difícil encontrar alguém!!!

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  4. Preciso falar com vc, é muito importante. Meu email: redmanflavia@gmail.com

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  5. Sinceramente, voce Zahara nao entende bem a cultural do Pakistan. Voce o humilhava com o seu comportamento independente. E voce parece se orgulhar disso e da sua vida. Entao por isso seu relacionamento nao deu certo porque para um Pakistani ele é o responsavel pelo sustento da casa e da mulher. Trazer ele pra ca ? Me desculpe, sei que para os padroes brasileiros é louvavel a mulher ser independente mas nao para o Pakistan. E ele nao estava na sua aba. No Brazil mal falam ingles. Como fazer para um homem de um cultura totalmente diferente arrumar trabalho ? Como ele viveria sozinho sem sua familia que é a coisa mais importante para um Pakistani ?

    Voce gostaria de um companheiro para dividir tudo ? Acho que voce deveria ter procurado um brasileiro mesmo.

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  6. olá, muito interessante o seu blog…estava a procura de historias reais e realistas pq tenho um blog e coletei muitas historias de relacionamentos com europeus mas quase nehuma de relacionamento com paquistanes, turco, egipcio...

    quero convidar vc e o pessoal do seu blog a trocarmos informacoes positivas e negativas sobre relacionamentos multiculturais, adaptacao a cultura do país em que vcs vivem e suas dificuldades.

    tenho tb um blog: http://confissoes-casadas-com-gringo.blogspot.com/

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