terça-feira, 8 de março de 2011

Madrugada 1

 Sim. Ele abriu a porta, foi até a cozinha, fumou um cigarro e se deitou. Não dormimos no mesmo quarto há quase 1 mês. Nossa última "conversa" foi há 1 semana. Dormi no andar de cima  ( minha filha dormiu na casa da amiga\) e escutei ele resmungando e me xingando na cozinha. Não parava de falar e isso foi me irritando, pois eram ofensas e críticas. Desci pela escada, com o celular na mão, perguntando por que tanta provocação, ainda mais pela manhã. A resposta foi irônica, como sempre. " Estou falando sozinho". Já pedi muuuitas vezes pra que não fizesse isso, mas pedir algo é pior. Faz justamente o contrário pra me provocar. Sou sua inimiga. Me cansei de tentar. Cansei-me de tomar a iniciativa e ir procurá-lo, conversar, discutir a relação. Quando eu me aproximava, as coisas ficavam bem por mais um tempo. Mas novamente vinha o silêncio. Não tem como lutar por uma relação sozinha. Agora só me lembro das ofensas, do descaso. Ele chegou em 14 de junho. Nunca mais vou esquecer-me da sensação de estar no aeroporto. Finalmente a espera de três anos iria terminar. Estava chegando meu futuro marido, um homem diferente dos ocidentais, com um lado religioso forte (já pensava na conservação da família, no alívio em não ter que administrar tudo sozinha mais), com uma inocência impar e com total confiança em mim, já que estava entregando seu futuro em minhas mãos. O voo atrasou mais de 4 horas. Já passava da uma da manhã e paramos em São Paulo, na Domingo de Moraes para comer. Eu estava dirigindo, perdida e ainda teríamos que descer a serra. Não parávamos de falar, de nos olhar, de chegar bem pertinho. Ele iria para minha casa - moro com minha filha de 16 anos - e ficaríamos em quartos separados até nos casarmos na Mesquita. Apesar de ser difícil, ele sempre me respeitou na Net. Lembro-me das conversas na comunidade do PK, onde as casadas diziam que se a gente desse liberdade antes, a gente iria escutar depois. Sou liberal sim, mas nunca passei de beijos no microfone e na telinha. Sexo virtual ou semelhante, pra mim não vira, não satisfaz, não tem lógica. Chegamos quase às 4 da manhã  em casa, sentamos no sofá e ele contava sobre a aventura da viagem. Aventura sim, pois o governo paquistanês quase breca sua ida a Dubai. Aventura na alfândega do Brasil também, pois apesar de não perguntarem quanto dinheiro ele tinha (estava com U$ 1.500,00), só deram 30 dias de visto. Amanheceu e eu pedi que ele fosse dormir. A casa estava impecável. Toalhas novas, flores em todo canto. Ele foi direto ao quarto se deitar e eu fui logo atrás. Dormimos agarrados, mas nos seguramos, pois sei que no Islam, ter relações antes do casamento é grave para eles. Afinal, já havia esperado três anos. Mais uma semana, que diferença faria? E assim fizemos até nos casarmos.
Para as que têm filhos adolescentes se preparem. Minha filha não fala muito o inglês. Eu tinha que conversar e ser tradutora ao mesmo tempo. Falar bilíngue ao mesmo tempo não era fácil. Os ciúmes de Ju foram imediatos.
Quando ele me avisou que tinha conseguido o dinheiro da passagem, perguntei a ela se concordava em ter o Wasu aqui. Claro que se ela dissesse não, jamais eu iria consentir, pois ela mora aqui também.
Mas eu estava hipnotizada, vivendo um sonho realizado. Não fui trabalhar no dia seguinte, arranjei uma desculpa e fomos passear no Guarujá: andamos pela praia, abraçados. Para ele foi uma novidade, pois não se anda de mãos dadas em público no Pk. Eu estava ganhando bem nessa época, era coordenadora de Obras na baixada. Queria agradá-lo de toda maneira, fazer pratos diferentes, passear por todos os lugares.
Voltei ao trabalho. Alguns dias ele ia comigo, outros ficava em casa. Já nos primeiros dias fomos a Mesquita e conseguimos marcar o casamento para dia 24, após várias advertências sobre os casamentos que não duravam. O divórcio é permitido no Islam.
No dia do casamento, nos sentamos em uma grande mesa e foi combinado o dote de U$ 1.000,00, sendo que 1/3  deveria ser pago adiantado e o restante no caso de dissolução. Eu não estava dando a mínima importância em receber o dinheiro, mas foi exigência do Sher.
 Foi tudo muito lindo, muito romântico. Só senti a diferença nos primeiros dias, pois antes só lanchávamos a noite e o Wasu só jantava comida. Chegava do trabalho e tinha que cozinhar, mas tudo bem! Meu amor estava comigo e além do mais, me ajudava a cozinhar. Lembro-me que ele ficou encantado com o varal de teto que tenho na lavanderia. Como será que estendem roupa em apartamento por lá...?Hehe.
Os dias se passavam e com o tempo, meu marido começou a  ter períodos em que ficava muito quieto. Como sou brincalhona, sempre o provocava, chegava perto, conversava. No primeiro mês, eu mal dormia. Ficávamos namorando até as 3, 4 da manhã. Logo após a relação, eu tinha que tomar banho completo, inclusive o cabelo, passando por um ritual de limpeza da área do chuveiro. Tudo isso levava mais de 20 minutos. Nunca tinha ouvido falar nisso, apesar de ter me convertido ao Islam há mais de dois anos. Ganhei várias gripes por dormir com o cabelo molhado - tenho muuuito cabelo- mas tudo bem!
Veio o mês do Ramadan e as coisas começaram a mudar. Ele fuma excessivamente, como eu. Mas estranhei, pois ele começou a ficar acordado durante a noite. Ele me acordava de madrugada para rezar e para tomar o café da manhã reforçado. Fumávamos vários cigarros antes do fasting, eu ia trabalhar e ele dormia até o fasting acabar. Não percebi isso de início, achava até graça, mas essa atitude começou a me incomodar. A Ju chegava da escola e ele dormindo. Passava o dia e ele dormindo. Eu chegava exausta das Obras e ele acabara de acordar. Sinceramente, foi  minha primeira decepção, pois jejuar dormindo era muito cômodo, kkkk.
 Como tínhamos conseguido renovar o visto por mais 3 meses, ele teria tempo para pedir outro certificado de antecedentes vindo de lá, sem isso não poderíamos nos casar aqui. Gozado que o original que ele tinha ficou na Embaixada do Brasil em Islamabad.




6 comentários:

  1. Pela 3ªvez, escrevo...Uma união envolve e implica em muitos aspectos que não cabe enumerar. O fato é que como mulher,somos capazes de atos de coragem como este e tbém de nos acovardar diante da vida.Enquanto houverem homens e mulheres, o jogo do amor será jogado sem vencedor, mas com um par de vencidos. Vencidos pelo cansaço, pela cultura, pela incompreensão,pelo machismo, pelo poder, pela arrogância, pela falta de amor ou por excesso dele,e até pela incompreensão do papel que cada um deve desempenhar na vida a dois. A verdade é que, quem sai de um relacionamento, sai para o mundo.Sai do "Eu" para o "outro".E isto implica em que Agora, somente agora, eu posso respirar novamente, somente agora eu posso viver, somente agora eu existo em mim,somente agora a felicidade posso ver que minha felicidade depende de alguém que não é o outro. Mas ele pode me ajudar. E eu posso continuar a ser mulher,feminina, abusada, feliz,posso rir, posso ousar, posso criar, trabalhar, chorar,melindrar, sofrer, esperar, machucar, dar, receber,amar, prosperar,cair, levantar...e continuar. Continuar sendo mulher, sendo a Deusa Mãe, que acolhe, que cuida, que transforma, que luta, que ama,que procria, que deseja e que apesar deles...ainda tem no salto o recurso para mais um dia de Glória...Parabéns...bem vinda á Vida.

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  2. Eu fiz a mesma burrada de me "converter" por amor a um pk... e agora fiquei sozinha.
    Pelo menos não tenho que continuar fazendo o teatro que um dia pensei que poderia virar realidade e verdade.
    Como pude aceitar tanto machismo?! Não mais, estou aprendendo a lutar.
    Força mulher!

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  3. Eu tambem pasei por isso,mas com um indiano , e a diferença é q percebi antes de vencer o visto de 30 dias q deram á ele,mas ainda estou péssima com td q aconteceu,ele quer voltar ,mas eu ñ quero mais,pois sei q ñ daria certo.

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  4. Muito difícil isso. Meu Pak vai vir em julho ou setembro, depende de quando irão conceder-lhe o visto. São quase 3 anos de relacionamento virtual. Vocês não podem imaginar como é difícil devido ao choque cultural e religioso. Quando entrei nessa, eu estava certa que não iria ceder em nada, porque nunca aceitei mudar por causa do outro. Mas a essa altura do campeonato eu já disse que cedo em muitas coisas, como roupas, carne e bebida. Ele nem mesmo suporta a ideia de eu cumprimentar homens apertando as mãos. Quem diga de beijinhos, nem pensar! Ele não pode entender minha cultura. Eu sei que vai ser muito difícil para os dois, mas acho que mais para mim do que pra ele já que eu que cedo nas coisas. Mesmo assim que correr o risco e pagar pra ver, porque eu o amo demais é vai ser difícil viver essa vida sem ter ao menos tentado.

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  5. olá, muito interessante o seu blog…estava a procura de historias reais e realistas pq tenho um blog e coletei muitas historias de relacionamentos com europeus mas quase nehuma de relacionamento com paquistanes, turco, egipcio...

    quero convidar vc e o pessoal do seu blog a trocarmos informacoes positivas e negativas sobre relacionamentos multiculturais, adaptacao a cultura do país em que vcs vivem e suas dificuldades.

    tenho tb um blog: http://confissoes-casadas-com-gringo.blogspot.com/

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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